segunda-feira, 15 de julho de 2024

Franz Kafka, fragmentos centenários

    Neste ano de 2024, completam-se cem anos da morte de Kafka. 

   Entre homenagens e lembranças, resolvo fazer um breve comentário pessoal sobre como as obras desse escritor entraram nas minhas experiências de leitura literária e lá permaneceram, ruminando-se nos porões, nos corredores, nos depósitos e nesses cômodos esquecidos de nossa existência. E Kafka é isso. Esse alongar-se em frases que se lançam por aí, investigando os pesadelos cotidianos, as ninharias, as tramoias, o suborno e todo esse lado avesso do mundo moderno. Ele soube bem retratar isso. Com precisão. Com detalhe. Sem conformismos, criticamente. Não há adesão a esse estado de coisas nos livros kafkianos. Sempre um desconforto, que faz repensar. 

Retrato fotográfico de Kafka

    Aqui e agora, encaro estas linhas finitas. Nelas podem caber palavras sobre tantos contos, novelas e romances que Kafka redigiu. Decido focar nos três romances. Não por uma questão de preferência. As novelas e os contos me marcaram mais. A Metamorfose. Na Colônia Penal. Um artista da fome. Para um escritor um tanto prolixo como Kafka, paradoxalmente, ele se resolve bem na forma curta. Exatamente por isso vou contra minhas preferências pessoais e sigo na direção dos extenuantes romances. O aspecto claustrofóbico e infinito de suas narrativas longas, que me incomodaram tanto na leitura desses livros...   

    Kafka escreveu três romances, todos inacabados, publicados após sua morte. São eles: Amerika, O Processo e O Castelo. Comento cada um, individualmente:

Romance "O Processo"

    Começemos in media res por O Processo. Mesmo sem ter feito mal algum, o protagonista Josef K. é acusado por alguém. Ele é detido e percorre um processo jurídico sem fim. Esse processo transborda por todos os aspectos de sua vida, seja na família, no trabalho, na arte ou na religião. K. passa por fichas de arquivo, impessoal e burocraticamente. Mas, por toda parte, há interesses escusos, pessoais, dinheiro de suborno e tortura. Quem o acusou e com que finalidade? Talvez porque K. seja procurador de uma instituição bancária. Ele lida com trocas financeiras cotidianamente. Há alienação, tomada legal por terceiros, de posses, de propriedades, quando se envolve o vil metal. Ou pode ser por qualquer outro motivo. Não está claro. A tônica do romance é a ambiguidade. Essa ambiguidade o detém. K. está preso no tempo presente. E não avança. 

Romance "O Castelo"

    O Castelo é um livro de regressão. K. chegou numa aldeia muito distante, não somente no espaço, mas no tempo, com características arcaicas, ainda que hajam resquícios de modernidade por ali, como a presença de um telefone. Esse K. abreviado seria Josef K. de O Processo ou outra pessoa? Jamais saberemos. Não existem evidências suficientes para ligar um ao outro. De qualquer maneira, K. chegou para medir terras. Essa é uma função de arbítrio, que podemos pensar em paralelo com o problema da alienação do dinheiro, a partir da função de procurador do banco em O Processo. Mas aqui a alienação é sobre o direito da terra. Esse é um problema antigo, pois a propriedade privada da terra gerou a exploração do camponês e é a base da exploração das massas urbanas. O trabalhador sem terra é dependente de quem é proprietário da produção de alimentos. Mas é negado a K. a possibilidade de ser um agrimensor. O estrangeiro não tem lugar algum na aldeia. E o castelo do título está escondido em brumas, perdido como uma imagem dos recônditos do passado. Sabe-se lá se o castelo existe ou é uma invenção dos aldeões. O que importa é o que acontece na aldeia. 

Romance "Amerika"

    Amerika é uma narrativa post-festum. Karl Rosssmann foi expulso da Alemanha e nos é apresentado como mais um imigrante chegando na terra das oportunidades: os Estados Unidos da América. Ou assim o marketing nos prometeu. Avistando a Estátua da Liberdade, Karl observa que a figura ergue uma espada no lugar da tocha. Esse detalhe é significativo para a história. Simbolicamente, a tocha representa a iluminação do saber; e a espada, a declaração de guerra. A alegoria da Liberdade não se apresenta aqui como defensora do progresso, mas propagadora da violência. Nessa sociedade tecnológica e futurista, os imigrantes são excluídos, greves acontecem com frequência, as populações negras sofrem agressão policial nos bairros operários... A exploração do trabalhador, tão presente na velha Europa, ainda é a lei por essas terras. Buscando um futuro e uma saída, Karl se depara com um anúncio. Mais uma vez, aqui, o papel da publicidade é essencial para definir os Estados Unidos. No cartaz, convidam-se os desempregados para fazerem parte do Grande Teatro de Oklahoma. Nesse Teatro, um trabalhador poderia ser o que quisesse. Se desejasse ser um engenheiro, seria um engenheiro. Bastaria se inscrever como ator e representar esse papel. Kafka prevê neste Teatro alegórico uma crítica ao espetáculo da vida cotidiana e da indústria cultural na terra de Hollywood. O oprimido deixa a esperança de mudar sua vida para melhor e passa a apostar suas fichas numa imagem de felicidade. Eis aí um controle perverso, que ainda vivemos, principalmente se levarmos em conta o quanto a internet é o mundo das imagens felizes, falsas e espetaculares. Vale ressaltar ainda que Karl adota o codinome Negro no Teatro de Oklahoma. Apesar de alemão, ele também é um excluído em solo americano. Foi no gueto negro que encontrou acolhida e segurança por um tempo. Indo para o Teatro, Karl pega um trem e faz uma longa viagem, que não chega a seu destino. Terminamos a leitura olhando para a paisagem na janela da locomotiva. Essa cena ecoa uma pergunta: Que futuro nos aguarda?  

    Toda escrita kafkiana é uma escrita dos fragmentos de uma vida. Num mundo fragmentado, ele escreveu um realismo fragmentado, contraditório. Kafka é um paradoxo que não se resolve. Esse é seu ponto fraco, essa é sua força, que o impede de dar um ponto final a seus romances. E esses fragmentos se tornaram centenários, propagando-se ainda, e tendo o que dizer.