segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Anotações de leitura: "Teoria do Medalhão", de Machado de Assis

1. Um conto sem narrador, que apresenta as características do gênero dramático, alternando as falas dos personagens. Foco no diálogo, na ação dramática da conversa noturna.

2. O conto parece - desde o seu título - um apanhado de anotações e pensamentos sobre a linguagem, a sociedade e a alma humana, reunidos e enfeixados sob uma forma que lembra os diálogos platônicos: exposição discursiva de um personagem central seguida de indagações de outro personagem (para que o anterior prossiga em seu raciocínio).

3.  A  referência ao Príncipe de Maquiavel sintetiza, intertextualmente, o problema do homem moderno e do homem político na narrativa. O medalhão é mais sua posição hierárquica (e suas atribuições) do que si mesmo.  Seu "cargo" perpassa as gerações. 

4. A explicação no texto sobre o papel da ironia é uma autorreferência à particularidade estética da obra literária de Machado: O "idealismo metafísico" do adjetivo e o "naturalismo nu e cru" do substantivo são ambos negados (suprassumidos, dialeticamente) pela ironia machadiana, a qual incorpora o discurso burocrático do medalhão (com suas frases floreadas, seu "fazer média"...) para desmontá-lo por dentro. A apologia se desfaz na boca do pai e a tradição medalhônica será carregada pelo filho. Tudo isso demonstrado com objetividade e distanciamento a ponto de suprimir a própria voz narrativa. 


             Machado de Assis

5. Continuando algumas ideias que vim refletindo, a partir das obras do marxista húngaro Georg Lukács, O Romance Histórico e Problemas do Realismo, ambos da década de 1930, penso que a ironia machadiana conduz o fio narrativo do conto, sob a ação dramática dos personagens, rumo a um "triunfo do realismo" (expressão de Friedrich Engels). O realismo, para Lukács, não é o realismo de escola literária, mas o realismo estético, ou seja, um problema de fundo trans-histórico que atravessa a literatura em vários tempos. O realismo, na perspectiva lukácsiana, não adere ao mundo imediato (naturalismo, pseudorrealismo) e não o nega de modo irracional (formalismo, antirrealismo). Ele objetiva o mundo, de modo crítico, e com os meios próprios da forma artística. No caso de Machado de Assis, a forma do realismo é a sua fina ironia do medalhão e contra o medalhão. 

6. O realismo de escola literária, também conhecido como naturalismo, foi justamente criticado por Machado de Assis em seu ensaio sobre o escritor português Eça de Queirós. É importante distinguir os dois conceitos de realismo nestas anotações.  

Papéis Avulsos, contos

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