1. Um conto sem narrador, que apresenta as características do gênero dramático, alternando as falas dos personagens. Foco no diálogo, na ação dramática da conversa noturna.
2. O conto parece - desde o seu título - um apanhado de anotações e pensamentos sobre a linguagem, a sociedade e a alma humana, reunidos e enfeixados sob uma forma que lembra os diálogos platônicos: exposição discursiva de um personagem central seguida de indagações de outro personagem (para que o anterior prossiga em seu raciocínio).
3. A referência ao Príncipe de Maquiavel sintetiza, intertextualmente, o problema do homem moderno e do homem político na narrativa. O medalhão é mais sua posição hierárquica (e suas atribuições) do que si mesmo. Seu "cargo" perpassa as gerações.
4. A explicação no texto sobre o papel da ironia é uma autorreferência à particularidade estética da obra literária de Machado: O "idealismo metafísico" do adjetivo e o "naturalismo nu e cru" do substantivo são ambos negados (suprassumidos, dialeticamente) pela ironia machadiana, a qual incorpora o discurso burocrático do medalhão (com suas frases floreadas, seu "fazer média"...) para desmontá-lo por dentro. A apologia se desfaz na boca do pai e a tradição medalhônica será carregada pelo filho. Tudo isso demonstrado com objetividade e distanciamento a ponto de suprimir a própria voz narrativa.
Machado de Assis
5. Continuando algumas ideias que vim refletindo, a partir das obras do marxista húngaro Georg Lukács, O Romance Histórico e Problemas do Realismo, ambos da década de 1930, penso que a ironia machadiana conduz o fio narrativo do conto, sob a ação dramática dos personagens, rumo a um "triunfo do realismo" (expressão de Friedrich Engels). O realismo, para Lukács, não é o realismo de escola literária, mas o realismo estético, ou seja, um problema de fundo trans-histórico que atravessa a literatura em vários tempos. O realismo, na perspectiva lukácsiana, não adere ao mundo imediato (naturalismo, pseudorrealismo) e não o nega de modo irracional (formalismo, antirrealismo). Ele objetiva o mundo, de modo crítico, e com os meios próprios da forma artística. No caso de Machado de Assis, a forma do realismo é a sua fina ironia do medalhão e contra o medalhão.
6. O realismo de escola literária, também conhecido como naturalismo, foi justamente criticado por Machado de Assis em seu ensaio sobre o escritor português Eça de Queirós. É importante distinguir os dois conceitos de realismo nestas anotações.
Papéis Avulsos, contos


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