Graciliano Ramos escreveu grande parte de seus principais livros em primeira pessoa. É o caso de São Bernardo, Angústia e Infância, três romances de tom pessoal. Ou mesmo suas postumamente publicadas Memórias do Cárcere. Contudo... É exatamente naquela narrativa em que ele foge a sua própria regra, escrevendo em terceira pessoa, que o escritor alagoano me agrada mais. Vidas Secas é um primor. E o conto "Baleia" é uma das mais relevantes histórias que já li em vida. Há muita verdade ali.
Graciliano Ramos, redigindo.
Em Vidas Secas, o leitor acompanha a migração de uma família de retirantes, atravessando o sertão nordestino: Fabiano, o pai, Sinha Vitória, a mãe, os dois filhos e a cachorra Baleia. O drama é evidentemente social, tematiza-se a pobreza, a exclusão; e as consequências da exposição do ser humano à violência e ao meio inóspito. Já se comentou recorrentemente sobre o quiasmo da obra: a animalização dos personagens humanos e a humanização da personagem animal, a cachorra Baleia. Na técnica narrativa, pode-se observar como o narrador, onisciente, se intromete nos pensamentos dos personagens e “pensa junto” com eles, usando como recurso aquilo que se conhece gramaticalmente por discurso indireto livre. É por meio desse discurso misturado de narrador e de personagem que se apresenta ao leitor o fato do vaqueiro Fabiano se comunicar por grunhidos, desacostumando-se com o uso de palavras; ou quando Baleia reflete sobre seus deveres e sobre seus sentimentos a respeito de Fabiano, a quem deve obediência. Uma síntese bem interessante, que aproxima os dois seres viventes, acontece quando Fabiano está se remoendo sobre sua posição subjugada:
Pois não estavam vendo que ele era de carne e osso? Tinha obrigação de trabalhar para os outros, naturalmente, conhecia o seu lugar. Bem. Nascera com esse destino, ninguém tinha culpa de ele haver nascido com um destino ruim. Que fazer? Podia mudar a sorte? Se lhe dissessem que era possível melhorar de situação, espantar-se-ia. Tinha vindo ao mundo para amansar brabo, curar feridas com rezas, consertar cercas de inverno a verão. Era sina. O pai vivera assim, o avô também. E para trás não existia família. Cortar mandacaru, ensebar látegos — aquilo estava no sangue. Conformava-se, não pretendia mais nada. Se lhe dessem o que era dele, estava certo. Não davam. Era um desgraçado, era como um cachorro, só recebia ossos. Por que seria que os homens ricos ainda lhe tomavam uma parte dos ossos? Fazia até nojo pessoas importantes se ocuparem com semelhantes porcarias.
Há muita verdade aqui. E o que a literatura tem a ver com a verdade? Um romance não é uma peça de ficção, de mentira, de invencionices? Ora, a ficção é uma outra forma de dizer a verdade, sem precisar dizê-la. Ora, o pensamento que importa procura a verdade, ainda que torne o falso uma parte relevante do trajeto. Ora, a mentira tem perna curta. Estas frases são mais provocações do que silogismos, ou coisa que o valha. O argumento deste texto se dirige a uma reflexão sobre os três tipos de narrativa: a de primeira pessoa, baseado na vivência pessoal, na emoção; a de segunda pessoa, que se dirige ao interlocutor, em linguagem missivista, apelativa; e a de terceira pessoa, onde há a presença do narrador onisciente, em panorama, que, à distância, compara os pontos de vista, objetiva as experiências próprias e alheias, faz análise psicológica, realista (1). Graciliano transita entre a primeira e a terceira linguagens. Sempre em busca da verdade. Com tendência para o fazer num movimento que se direciona da perspectiva pessoalizada para a impessoal. E o realiza melhor, em Vidas Secas, onde encontra uma linguagem enxuta, ressecada, de longe. Terceiras pessoas, nestas securas de vida.

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