sábado, 1 de março de 2025

Tradução: "Contos Contagiosos", de Luis Britto García

    Nos últimos tempos, lendo e pesquisando a respeito de um livro de contos chamado Rajatabla, do autor venezuelano Luis Britto García, encontro o blogue do escritor (https://luisbrittogarcia.blogspot.com/) e acompanho suas postagens ocasionais, mas contínuas. 

    Deparo-me com os minicontos de Contos contagiosos, que García concebeu durante a pandemia mundial de 2020. Leio essas provocativas anedotas, que fazem convergir a ficção científica e a crítica da realidade existente. Traduzo-as para o português. 

    Britto García é ainda um autor pouco conhecido no Brasil apesar de estar entre os principais nomes da literatura venezuelana contemporânea. Seguem aqui estas versões de seu texto como um gesto em direção à necessária integração cultural latino-americana. Viva Simón Bolívar!


CONTOS CONTAGIOSOS


COOKIES

Assim é a coisa. Cada vez que abrimos uma página web esta anuncia que respeita nossa privacidade e que, por tal motivo, instala em nosso computador cookies, policiais eletrônicos que espiam o que lemos, escrevemos ou comunicamos. Com os cookies aparecem telas cheias de tolices, faltando o comando que permita apagá-las ou bloqueá-las. Literalmente não se pode abrir a internet sem que invada o computador um exército de cookies, ocupando espaço e entregando o que fazemos até que toda a memória de todos os dispositivos informáticos fique totalmente abarrotada de cookies espiando-se uns aos outros e telas não solicitadas tapando-se entre si e já não se pode trabalhar, comunicar, nem pesquisar. Afastando o olhar das telas descobrimos um mundo extraordinário, onde há dia e noite, estrelas e pássaros, paisagens, seres humanos. Ninguém perde o sono por conta de nossa privacidade nem tenta instalar espiões de modo que podemos tentar vê-los, conhecê-los e conviver bem com eles.


VÍRUS

Descobre-se que as ideias são vírus alojados principalmente no cérebro. Espalharam-nas com métodos primitivos, ameaças, palmatórias, liturgias. Os aparelhos ideológicos são agências para impor o contágio obrigatório. Uma ideia pode te ocorrer na forma de anúncio, hora de estudo, livro ou sonho. As mais perigosas aparecem como autoevidentes. Têm sido responsáveis por avanços e esclarecimentos, mas também por guerras e desentendimentos. Aperfeiçoa-se a máscara contra as ideias na forma de catedral ou rede social. Depois de ler este artigo desinfecte com gel o cérebro.


VÉUS

Compartilhamos agora a tristeza dos mulçumanos de não conhecer a beleza oculta por trás das túnicas e véus. Os olhos se tornaram o único objeto visível do desejo. Publicações eróticas exploram o mistério da piscadela. As mais escatológicas apresentam o olho inteiramente aberto. Casam-se as noivas com máscaras de renda e as noites de núpcias são às escuras para evitar desilusões.


MÁSCARA

Já está disponível a máscara que nos livra de tantos contágios múltiplos. Com malhas de grafeno, filtra o escândalo de tantos alto-falantes que nos impõem música ruim ou refrões piores. Uma tela de quartzo retira do nosso olhar os prédios mal desenhados, os trajes horripilantes, os acúmulos de lixo, os rostos vencidos pelo ódio ou pela preguiça. As más posturas são piores do que a fealdade de modo que a máscara as impede de serem vistas. Luvas protetoras protegem contra as superfícies ásperas ou pontiagudas de desdém ou de tédio. Tampões seletivos filtram palavras banais, argumentos falaciosos ou tediosas conversas. Leitores informatizados descartam as más notícias, as opiniões pessimamente escritas ou a literatura medíocre. Sua proteção é tal que evita advertir maliciosos ou indesejáveis. Por fim, estamos a salvo do detestável. Tampouco tentemos nos ver no espelho com a máscara posta: seus sensores profiláticos nos terão apagado.


QUANTUM COMPUTER 

Este é o resultado de se pôr a jogar com os números. Para provar que o novo computador quantum supera 8 vezes elevadas à décima potência a capacidade e a rapidez do computador convencional, ele é colocado para decodificar as senhas que protegem todos os segredos importantes que tornam importantes as pessoas ou instituições. Quando digo todos é todos: desde os subornos recebidos pela totalidade dos honrados candidatos até os depósitos que cada um tem nos Paraísos Fiscais; desde a quantia e a identidade de sacerdotes pedófilos até as filmagens das câmeras de segurança das adúlteras nos motéis por horas; desde o arquivo de crimes de lesa-humanidade dos estadistas até os balanços desbalanceados dos impérios financeiros; desde a cura para o câncer que as farmacêuticas ocultam porque os tratamentos inúteis são mais rentáveis, até os dividendos da comercialização de cancerígenos, desde os custeios reais do complexo militar industrial até sua tradução em vidas de mercenários e assassinados. Mas os computadores quânticos, iguais aos quanta, padecem de incoerência. No mundo onde o segredo havia deixado de existir para os de baixo, as senhas dos segredos são divulgadas para todos, democratiza-se a delação contra os de cima, a revelação sobre os atentados de bandeira falsa, os homicídios misteriosos, a mecânica do armamentismo e a verdade sobre o tráfico de drogas. Sem mencionar que a revelação das senhas das contas ocultas permite o confisco universal e a redistribuição da riqueza. Como a mecânica quântica pressupõe um fenômeno que pode apresentar comportamentos contraditórios que o caracterizem ora como onda ora como partícula, ou um gato aprisionado numa caixa pode estar ora vivo ora morto sem que saibamos qual destes efeitos na realidade se tenha produzido, não sabemos se esta orgia da verdade que todos conheceram a) dissolve todas as instituições e nos enfrenta com a terrível liberdade b) não é percebida pela maioria, por temor, por covardia, por resignação de seguir sendo o que nunca haviam acreditado que seriam no meio da asfixiante peste do gato aprisionado.


NÃO PRESENCIAL

Aulas à distância e administração à distância e contato à distância via redes sociais permitem que cada vez seja mais possível a civilização não presencial na qual finalmente só conhecemos telas. Da agorafobia à sociofobia não há mais que um passo que leva finalmente à autofobia que produz o poder de perceber todos os nossos horrores sem que os demais nos distraiam.


FINAL 

Ao final, após a certeza de que a aplicação de todo projeto resulta no contrário daquilo para o qual foi formulado, planeja-se impor a ditadura mais exploradora, opressiva, mentirosa e absurda, o que por si mesma acaba resultando em seu contrário. Você não precisa se esforçar muito, é quase o que a maioria do mundo vive.


SONHOS 

Sonha que viveu uma realidade, e não sabe como interpretá-la.


CURA

A cura da pandemia é encontrada, agora se pesquisa a cura da cura.


LITERATURA

Fazer uma literatura tão espantosa que a realidade pareça um alívio.


Disponíveis em: https://luisbrittogarcia.blogspot.com/2021/12/cuentos-contagiosos.html

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Franz Kafka, fragmentos centenários

    Neste ano de 2024, completam-se cem anos da morte de Kafka. 

   Entre homenagens e lembranças, resolvo fazer um breve comentário pessoal sobre como as obras desse escritor entraram nas minhas experiências de leitura literária e lá permaneceram, ruminando-se nos porões, nos corredores, nos depósitos e nesses cômodos esquecidos de nossa existência. E Kafka é isso. Esse alongar-se em frases que se lançam por aí, investigando os pesadelos cotidianos, as ninharias, as tramoias, o suborno e todo esse lado avesso do mundo moderno. Ele soube bem retratar isso. Com precisão. Com detalhe. Sem conformismos, criticamente. Não há adesão a esse estado de coisas nos livros kafkianos. Sempre um desconforto, que faz repensar. 

Retrato fotográfico de Kafka

    Aqui e agora, encaro estas linhas finitas. Nelas podem caber palavras sobre tantos contos, novelas e romances que Kafka redigiu. Decido focar nos três romances. Não por uma questão de preferência. As novelas e os contos me marcaram mais. A Metamorfose. Na Colônia Penal. Um artista da fome. Para um escritor um tanto prolixo como Kafka, paradoxalmente, ele se resolve bem na forma curta. Exatamente por isso vou contra minhas preferências pessoais e sigo na direção dos extenuantes romances. O aspecto claustrofóbico e infinito de suas narrativas longas, que me incomodaram tanto na leitura desses livros...   

    Kafka escreveu três romances, todos inacabados, publicados após sua morte. São eles: Amerika, O Processo e O Castelo. Comento cada um, individualmente:

Romance "O Processo"

    Começemos in media res por O Processo. Mesmo sem ter feito mal algum, o protagonista Josef K. é acusado por alguém. Ele é detido e percorre um processo jurídico sem fim. Esse processo transborda por todos os aspectos de sua vida, seja na família, no trabalho, na arte ou na religião. K. passa por fichas de arquivo, impessoal e burocraticamente. Mas, por toda parte, há interesses escusos, pessoais, dinheiro de suborno e tortura. Quem o acusou e com que finalidade? Talvez porque K. seja procurador de uma instituição bancária. Ele lida com trocas financeiras cotidianamente. Há alienação, tomada legal por terceiros, de posses, de propriedades, quando se envolve o vil metal. Ou pode ser por qualquer outro motivo. Não está claro. A tônica do romance é a ambiguidade. Essa ambiguidade o detém. K. está preso no tempo presente. E não avança. 

Romance "O Castelo"

    O Castelo é um livro de regressão. K. chegou numa aldeia muito distante, não somente no espaço, mas no tempo, com características arcaicas, ainda que hajam resquícios de modernidade por ali, como a presença de um telefone. Esse K. abreviado seria Josef K. de O Processo ou outra pessoa? Jamais saberemos. Não existem evidências suficientes para ligar um ao outro. De qualquer maneira, K. chegou para medir terras. Essa é uma função de arbítrio, que podemos pensar em paralelo com o problema da alienação do dinheiro, a partir da função de procurador do banco em O Processo. Mas aqui a alienação é sobre o direito da terra. Esse é um problema antigo, pois a propriedade privada da terra gerou a exploração do camponês e é a base da exploração das massas urbanas. O trabalhador sem terra é dependente de quem é proprietário da produção de alimentos. Mas é negado a K. a possibilidade de ser um agrimensor. O estrangeiro não tem lugar algum na aldeia. E o castelo do título está escondido em brumas, perdido como uma imagem dos recônditos do passado. Sabe-se lá se o castelo existe ou é uma invenção dos aldeões. O que importa é o que acontece na aldeia. 

Romance "Amerika"

    Amerika é uma narrativa post-festum. Karl Rosssmann foi expulso da Alemanha e nos é apresentado como mais um imigrante chegando na terra das oportunidades: os Estados Unidos da América. Ou assim o marketing nos prometeu. Avistando a Estátua da Liberdade, Karl observa que a figura ergue uma espada no lugar da tocha. Esse detalhe é significativo para a história. Simbolicamente, a tocha representa a iluminação do saber; e a espada, a declaração de guerra. A alegoria da Liberdade não se apresenta aqui como defensora do progresso, mas propagadora da violência. Nessa sociedade tecnológica e futurista, os imigrantes são excluídos, greves acontecem com frequência, as populações negras sofrem agressão policial nos bairros operários... A exploração do trabalhador, tão presente na velha Europa, ainda é a lei por essas terras. Buscando um futuro e uma saída, Karl se depara com um anúncio. Mais uma vez, aqui, o papel da publicidade é essencial para definir os Estados Unidos. No cartaz, convidam-se os desempregados para fazerem parte do Grande Teatro de Oklahoma. Nesse Teatro, um trabalhador poderia ser o que quisesse. Se desejasse ser um engenheiro, seria um engenheiro. Bastaria se inscrever como ator e representar esse papel. Kafka prevê neste Teatro alegórico uma crítica ao espetáculo da vida cotidiana e da indústria cultural na terra de Hollywood. O oprimido deixa a esperança de mudar sua vida para melhor e passa a apostar suas fichas numa imagem de felicidade. Eis aí um controle perverso, que ainda vivemos, principalmente se levarmos em conta o quanto a internet é o mundo das imagens felizes, falsas e espetaculares. Vale ressaltar ainda que Karl adota o codinome Negro no Teatro de Oklahoma. Apesar de alemão, ele também é um excluído em solo americano. Foi no gueto negro que encontrou acolhida e segurança por um tempo. Indo para o Teatro, Karl pega um trem e faz uma longa viagem, que não chega a seu destino. Terminamos a leitura olhando para a paisagem na janela da locomotiva. Essa cena ecoa uma pergunta: Que futuro nos aguarda?  

    Toda escrita kafkiana é uma escrita dos fragmentos de uma vida. Num mundo fragmentado, ele escreveu um realismo fragmentado, contraditório. Kafka é um paradoxo que não se resolve. Esse é seu ponto fraco, essa é sua força, que o impede de dar um ponto final a seus romances. E esses fragmentos se tornaram centenários, propagando-se ainda, e tendo o que dizer.  

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Vidas Secas: considerações sobre literatura e verdade

Graciliano Ramos escreveu grande parte de seus principais livros em primeira pessoa. É o caso de São Bernardo, Angústia e Infância, três romances de tom pessoal. Ou mesmo suas postumamente publicadas Memórias do Cárcere. Contudo... É exatamente naquela narrativa em que ele foge a sua própria regra, escrevendo em terceira pessoa, que o escritor alagoano me agrada mais. Vidas Secas é um primor. E o conto "Baleia" é uma das mais relevantes histórias que já li em vida. Há muita verdade ali.


Graciliano Ramos, redigindo.


Em Vidas Secas, o leitor acompanha a migração de uma família de retirantes, atravessando o sertão nordestino: Fabiano, o pai, Sinha Vitória, a mãe, os dois filhos e a cachorra Baleia. O drama é evidentemente social, tematiza-se a pobreza, a exclusão; e as consequências da exposição do ser humano à violência e ao meio inóspito. Já se comentou recorrentemente sobre o quiasmo da obra: a animalização dos personagens humanos e a humanização da personagem animal, a cachorra Baleia. Na técnica narrativa, pode-se observar como o narrador, onisciente, se intromete nos pensamentos dos personagens e “pensa junto” com eles, usando como recurso aquilo que se conhece gramaticalmente por discurso indireto livre. É por meio desse discurso misturado de narrador e de personagem que se apresenta ao leitor o fato do vaqueiro Fabiano se comunicar por grunhidos, desacostumando-se com o uso de palavras; ou quando Baleia reflete sobre seus deveres e sobre seus sentimentos a respeito de Fabiano, a quem deve obediência. Uma síntese bem interessante, que aproxima os dois seres viventes, acontece quando Fabiano está se remoendo sobre sua posição subjugada: 


Pois não estavam vendo que ele era de carne e osso? Tinha obrigação de trabalhar para os outros, naturalmente, conhecia o seu lugar. Bem. Nascera com esse destino, ninguém tinha culpa de ele haver nascido com um destino ruim. Que fazer? Podia mudar a sorte? Se lhe dissessem que era possível melhorar de situação, espantar-se-ia. Tinha vindo ao mundo para amansar brabo, curar feridas com rezas, consertar cercas de inverno a verão. Era sina. O pai vivera assim, o avô também. E para trás não existia família. Cortar mandacaru, ensebar látegos — aquilo estava no sangue. Conformava-se, não pretendia mais nada. Se lhe dessem o que era dele, estava certo. Não davam. Era um desgraçado, era como um cachorro, só recebia ossos. Por que seria que os homens ricos ainda lhe tomavam uma parte dos ossos? Fazia até nojo pessoas importantes se ocuparem com semelhantes porcarias.

 

Há muita verdade aqui. E o que a literatura tem a ver com a verdade? Um romance não é uma peça de ficção, de mentira, de invencionices? Ora, a ficção é uma outra forma de dizer a verdade, sem precisar dizê-la. Ora, o pensamento que importa procura a verdade, ainda que torne o falso uma parte relevante do trajeto. Ora, a mentira tem perna curta. Estas frases são mais provocações do que silogismos, ou coisa que o valha. O argumento deste texto se dirige a uma reflexão sobre os três tipos de narrativa: a de primeira pessoa, baseado na vivência pessoal, na emoção; a de segunda pessoa, que se dirige ao interlocutor, em linguagem missivista, apelativa; e a de terceira pessoa, onde há a presença do narrador onisciente, em panorama, que, à distância, compara os pontos de vista, objetiva as experiências próprias e alheias, faz análise psicológica, realista (1). Graciliano transita entre a primeira e a terceira linguagens. Sempre em busca da verdade. Com tendência para o fazer num movimento que se direciona da perspectiva pessoalizada para a impessoal. E o realiza melhor, em Vidas Secas, onde encontra uma linguagem enxuta, ressecada, de longe. Terceiras pessoas, nestas securas de vida. 


Romance "Vidas Secas"


1) O crítico literário caraquenho Orlando Araujo, em seu livro de historiografia literária, Narrativa venezuelana contemporânea, sistematizou, de modo bem produtivo, essa categorização em três partes dos tipos narrativos (de acordo com o tipo de narrador).

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Anotações de leitura: "Teoria do Medalhão", de Machado de Assis

1. Um conto sem narrador, que apresenta as características do gênero dramático, alternando as falas dos personagens. Foco no diálogo, na ação dramática da conversa noturna.

2. O conto parece - desde o seu título - um apanhado de anotações e pensamentos sobre a linguagem, a sociedade e a alma humana, reunidos e enfeixados sob uma forma que lembra os diálogos platônicos: exposição discursiva de um personagem central seguida de indagações de outro personagem (para que o anterior prossiga em seu raciocínio).

3.  A  referência ao Príncipe de Maquiavel sintetiza, intertextualmente, o problema do homem moderno e do homem político na narrativa. O medalhão é mais sua posição hierárquica (e suas atribuições) do que si mesmo.  Seu "cargo" perpassa as gerações. 

4. A explicação no texto sobre o papel da ironia é uma autorreferência à particularidade estética da obra literária de Machado: O "idealismo metafísico" do adjetivo e o "naturalismo nu e cru" do substantivo são ambos negados (suprassumidos, dialeticamente) pela ironia machadiana, a qual incorpora o discurso burocrático do medalhão (com suas frases floreadas, seu "fazer média"...) para desmontá-lo por dentro. A apologia se desfaz na boca do pai e a tradição medalhônica será carregada pelo filho. Tudo isso demonstrado com objetividade e distanciamento a ponto de suprimir a própria voz narrativa. 


             Machado de Assis

5. Continuando algumas ideias que vim refletindo, a partir das obras do marxista húngaro Georg Lukács, O Romance Histórico e Problemas do Realismo, ambos da década de 1930, penso que a ironia machadiana conduz o fio narrativo do conto, sob a ação dramática dos personagens, rumo a um "triunfo do realismo" (expressão de Friedrich Engels). O realismo, para Lukács, não é o realismo de escola literária, mas o realismo estético, ou seja, um problema de fundo trans-histórico que atravessa a literatura em vários tempos. O realismo, na perspectiva lukácsiana, não adere ao mundo imediato (naturalismo, pseudorrealismo) e não o nega de modo irracional (formalismo, antirrealismo). Ele objetiva o mundo, de modo crítico, e com os meios próprios da forma artística. No caso de Machado de Assis, a forma do realismo é a sua fina ironia do medalhão e contra o medalhão. 

6. O realismo de escola literária, também conhecido como naturalismo, foi justamente criticado por Machado de Assis em seu ensaio sobre o escritor português Eça de Queirós. É importante distinguir os dois conceitos de realismo nestas anotações.  

Papéis Avulsos, contos